O que é o estudo biomecânico da marcha?
A marcha é a forma como caminhamos. Parece um gesto simples, mas envolve dezenas de articulações, músculos e ligamentos a trabalhar em sequência. Quando algo nesta cadeia não funciona bem (um pé que roda demasiado para dentro, um tornozelo rígido, uma perna que compensa a outra), o corpo adapta-se, e essa adaptação pode, com o tempo, causar dor.
O estudo biomecânico da marcha é uma avaliação detalhada da estrutura e do movimento dos pés e das pernas, em repouso e a caminhar. O objetivo é perceber a origem mecânica das queixas e definir um tratamento dirigido à causa.
Para quem está indicado?
Esta avaliação é útil para pessoas de todas as idades, sobretudo quando há:
- Dor nos pés: no calcanhar, no arco ou na parte da frente do pé.
- Dor nos joelhos, ancas ou na zona lombar sem causa clara.
- Lesões de repetição em desportistas: tendinites, periostites, fasciíte plantar, fraturas de stress.
- Entorses frequentes ou sensação de instabilidade nos tornozelos.
- Pé plano, pé cavo, joanetes ou dedos em garra.
- Calosidades que voltam sempre no mesmo sítio.
- Desgaste muito desigual do calçado.
- Crianças que tropeçam muito, andam em bicos de pés ou com os pés para dentro.
- Diferença de comprimento entre as pernas, real ou aparente.
Como funciona a avaliação
1. Conversa inicial
Perguntamos pelas suas queixas, há quanto tempo existem, o que as agrava e o que as alivia. Falamos também sobre a sua profissão, atividade física, lesões anteriores e calçado habitual.
2. Exame em repouso
Com a pessoa deitada e sentada, avaliamos a forma do pé, a mobilidade das articulações do pé, do tornozelo, do joelho e da anca, a força muscular e a flexibilidade. Verificamos também o alinhamento das pernas.
3. Avaliação em carga
Em pé, observamos como o pé se comporta quando suporta o peso do corpo: a altura do arco, a posição do calcanhar, o equilíbrio e a distribuição de pressões na planta do pé.
4. Análise da marcha
Observamos a forma como caminha (e, em desportistas, como corre) em cada fase do passo: o contacto do calcanhar, o apoio completo e a impulsão. Quando útil, recorremos a registo em vídeo para analisar o movimento em pormenor e mostrar-lhe o que observámos.
5. Análise do calçado
O desgaste das solas e a deformação do calçado confirmam muitas vezes o que vemos na marcha, e ajudam a perceber se o calçado é o adequado.
6. Resultados e plano
No fim explicamos, de forma simples, o que encontrámos e como isso se relaciona com as suas queixas. O plano pode incluir exercícios de fortalecimento e alongamento, conselhos sobre calçado e treino, palmilhas por medida e, quando necessário, encaminhamento para outros profissionais de saúde.
Importante: o estudo da marcha não serve apenas para "fazer palmilhas". É uma ferramenta de diagnóstico que orienta o tratamento mais adequado para cada pessoa.
O que podemos encontrar
Cada pessoa caminha de forma única, e pequenas diferenças são normais. A avaliação procura alterações que, pela sua intensidade ou combinação, possam explicar as queixas. Alguns exemplos frequentes:
- Pronação excessiva: o pé "cai" demasiado para dentro durante o apoio, o que pode sobrecarregar o arco plantar, o tendão de Aquiles e o joelho.
- Supinação ou pé cavo: o apoio faz-se mais pelo bordo exterior, com menos amortecimento natural e maior risco de entorses.
- Limitação da mobilidade do tornozelo ou do dedo grande, que obriga o resto do corpo a compensar.
- Diferenças entre o lado direito e o esquerdo, por exemplo no comprimento das pernas, na força ou no apoio.
- Fraqueza de músculos estabilizadores da anca ou do pé, que alteram o alinhamento do joelho.
Mais importante do que identificar uma alteração isolada é relacioná-la com o que sente. É isso que permite escolher o tratamento mais útil para o seu caso.
Marcha na criança e no adulto mais velho
Nas crianças, a forma de caminhar muda bastante ao longo do crescimento. Pés planos, pés virados para dentro ou joelhos juntos podem ser fases normais do desenvolvimento. A avaliação ajuda a distinguir o que é esperado para a idade do que merece acompanhamento.
Nas pessoas mais velhas, o estudo da marcha pode ajudar a identificar fatores que aumentam o risco de quedas, como perda de força, rigidez ou alterações do equilíbrio, e a orientar medidas de prevenção.
Como se preparar
- Vista roupa confortável que permita observar as pernas até ao joelho.
- Traga o calçado que usa com mais frequência e, se correr ou fizer desporto, o calçado desportivo.
- Se já usa palmilhas, traga-as.
- Traga exames (radiografias, ecografias) e relatórios médicos relacionados com as queixas.
- Se possível, evite treinos intensos no dia da avaliação, para que o corpo não esteja fatigado.
Quando procurar ajuda
Considere um estudo da marcha se tem dores que aparecem ao caminhar ou correr e não melhoram com repouso, se as lesões se repetem, se vai começar a praticar um desporto de impacto ou se nota alterações na forma como a criança caminha. Quanto mais cedo se percebe a causa, mais simples tende a ser o tratamento.
Esta avaliação é especialmente útil na podologia desportiva e na podologia infantil, e ajuda também a resolver calosidades recorrentes.
A informação desta página é geral e não substitui uma avaliação presencial. Cada caso é analisado em consulta.