O que é o pé diabético?
Chama-se pé diabético ao conjunto de alterações que a diabetes pode provocar nos pés. Ao longo dos anos, níveis elevados de açúcar no sangue podem danificar os nervos (neuropatia) e os vasos sanguíneos (doença arterial periférica). O resultado é um pé que sente menos, recebe menos sangue e cicatriza pior.
O grande problema é que estas alterações costumam instalar-se em silêncio. Uma pessoa com a sensibilidade diminuída pode andar dias com uma pedra no sapato, uma bolha ou um calo a ferir a pele sem dar por isso. É assim que uma lesão pequena se pode transformar numa úlcera difícil de tratar.
A boa notícia é que a maior parte das complicações graves pode ser prevenida com vigilância regular, cuidados diários simples e tratamento precoce de qualquer alteração.
Sinais a que deve estar atento
Algumas pessoas com diabetes notam mudanças nos pés; outras não sentem nada. Fale com o podologista se reparar em:
- Formigueiro, dormência, sensação de "pé dormente" ou de andar sobre algodão.
- Dor em queimadura ou picadas, sobretudo à noite.
- Pés frios, pálidos ou arroxeados, ou dor nas pernas ao caminhar que alivia em repouso.
- Pele muito seca, com gretas, sobretudo nos calcanhares.
- Calos e calosidades espessos, por vezes com pontos escuros por baixo.
- Unhas grossas, amareladas ou encravadas.
- Alterações da forma do pé, como dedos em garra ou joanetes, que criam novos pontos de pressão.
Como funciona a consulta de pé diabético
A consulta tem dois objetivos: perceber qual o grau de risco de cada pé e tratar o que já precisa de tratamento.
1. Conversa e história clínica
Perguntamos há quanto tempo tem diabetes, como está o controlo, que medicação faz, se já teve feridas ou outras complicações e como é o seu dia a dia. Traga, se tiver, as últimas análises e a lista de medicamentos.
2. Avaliação da sensibilidade
Usamos o teste do monofilamento e, quando indicado, outros testes simples (como o diapasão para a sensibilidade vibratória) para perceber se a sensibilidade de proteção está mantida. São testes indolores e rápidos.
3. Avaliação vascular
Palpamos os pulsos do pé, observamos a cor, a temperatura e o enchimento capilar da pele. Sempre que há sinais de má circulação, orientamos para avaliação médica complementar.
4. Observação da pele, das unhas e da forma do pé
Procuramos calosidades, gretas, micoses, unhas problemáticas, deformações e zonas de pressão. Observamos também o calçado e as meias que usa.
5. Classificação de risco
Com base nestes dados, classificamos o pé num grau de risco, de baixo a elevado, que define a frequência das consultas e os cuidados recomendados. Esta classificação é revista ao longo do tempo.
6. Tratamento e plano de prevenção
Fazemos os cuidados necessários com material esterilizado e técnicas seguras: corte e desbaste de unhas, remoção de calosidades, tratamento de gretas e micoses. Quando há pontos de pressão, podem ser indicadas proteções ou palmilhas por medida. No fim, explicamos os cuidados a ter em casa e combinamos a próxima consulta.
Trabalho em equipa: o podologista faz parte da equipa que acompanha a pessoa com diabetes, juntamente com o médico de família, o endocrinologista e a enfermagem. Sempre que necessário, partilhamos informação e encaminhamos.
Cuidados diários com os pés
Alguns minutos por dia fazem uma enorme diferença:
- Observe os pés todos os dias, incluindo a planta e entre os dedos. Se tiver dificuldade, use um espelho ou peça ajuda a alguém.
- Lave-os com água morna (teste a temperatura com o cotovelo ou um termómetro, não com o pé) e sabão neutro. Evite banhos prolongados.
- Seque muito bem, sobretudo entre os dedos.
- Aplique creme hidratante na planta e no calcanhar, mas não entre os dedos.
- Use meias sem costuras e sem elásticos apertados, de preferência claras, para notar rapidamente qualquer mancha.
- Não ande descalço, nem em casa nem na praia.
- Antes de calçar, passe a mão pelo interior do sapato para verificar se há objetos ou costuras salientes.
- Não use botijas, aquecedores ou escalda-pés para aquecer os pés.
- Nunca corte calos nem use calicidas ou pensos para calos.
- Mantenha um bom controlo da glicemia e, se fumar, procure ajuda para deixar de fumar: o tabaco agrava muito a circulação.
Calçado e meias: a primeira proteção
Grande parte das feridas no pé diabético começa no calçado. Um sapato novo demasiado rígido, uma costura interior ou uma sandália que roça podem provocar, em poucas horas, uma bolha que a pessoa não sente.
- Compre calçado ao fim do dia, quando os pés estão ligeiramente mais inchados, e experimente sempre os dois pés.
- Prefira sapatos com biqueira larga e alta, fecho com atacadores ou velcro e sola firme mas flexível.
- Use calçado novo de forma progressiva, poucas horas por dia, e verifique os pés depois de o tirar.
- Evite sapatos de bico estreito, saltos altos e chinelos que obriguem a "agarrar" com os dedos.
- Prefira meias de algodão ou de fibras técnicas que absorvam a humidade, sem costuras salientes, e troque-as diariamente.
Quando há deformações ou zonas de pressão marcadas, o calçado comum pode não ser suficiente. Nesses casos avaliamos a necessidade de palmilhas, proteções de silicone ou calçado terapêutico, em articulação com a equipa médica.
Porque a prevenção faz tanta diferença
As úlceras do pé são uma das complicações mais sérias da diabetes, e a maioria começa com uma lesão pequena e evitável: um calo que abre, uma unha mal cortada, uma greta no calcanhar. Detetar estes problemas cedo, antes de haver ferida, é o objetivo principal das consultas regulares.
Por isso, mesmo que os pés pareçam estar bem, a avaliação anual é recomendada para todas as pessoas com diabetes. Se o risco for mais elevado, a vigilância é mais frequente, e cada consulta é também um momento para rever os cuidados em casa e esclarecer dúvidas.
Quando procurar ajuda
Marque uma avaliação se tem diabetes e nunca fez um exame aos pés, ou se o último foi há mais de um ano. Procure o podologista logo que note um calo, uma unha encravada, uma greta ou uma alteração da cor ou da forma do pé.
Sinais de alarme: ferida que não cicatriza, bolha, pele vermelha, quente ou inchada, mau cheiro, secreção, pele escura ou febre. Nestes casos não espere pela consulta de rotina: contacte no próprio dia o seu médico, o SNS 24 (808 24 24 24) ou um serviço de urgência.
Também acompanhamos pessoas com diabetes ao domicílio e tratamos problemas associados como calosidades, unhas encravadas e micoses das unhas.
A informação desta página é geral e não substitui uma avaliação presencial. Cada caso é analisado em consulta.